27 de outubro de 2014

compasso

Preciso de uma balança, que me pese a felicidade num prato e a tristeza no outro.
Não quero ver, que alguém veja o que diz, que me diga devagarinho o que pesa mais.
Preciso de uma fórmula, que some todos os meus sorrisos e lhe subtraia as lágrimas que me caiem.
Não quero ver, que alguém veja o que diz, que me calcule o que fazer.
Preciso de um calendário, que marque os dias da semana até ao dia em que tudo vai passar.
Não quero ver, que alguém veja o que diz, e que me leve pela mão para outro lugar.

28 de setembro de 2014

play

A porta da velha oficina continua igual: enorme, verde, sem campainha. O batedor claro, já foi roubado. Abri-la é entrar no tempo que já passou há muito, num sítio onde fui crescendo e que, sem dar por isso, deixei de ver.
Gostava de ter sabido, da última vez que a vi a funcionar, que seria essa a última hipótese de registar a sua algazarra, cada pormenor do que se passava, ter feito as perguntas todas. Mas não se pode saber. Acho que nem ela soube.
A ideia que dá ao entrar é a de que alguém carregou na pausa, que ficou tudo pronto para trabalhar amanhã. As chaves na gaveta, o casaco pendurado, os tubos para trabalhar, o tacho no fogão, as encomendas na parede e o sabão azul e branco para as mãos. Mas não houve amanhã. E o pó tapou a caneta, entrou nos balões, cobriu as caixas e juntou-se às ferramentas.
Eu lembro-me do som das máquinas a funcionar, de refilar com as vezes que ia fazer recados, de aprender a desenhar por ali, de ouvir um "não corras", de sentir o calor e ver aquelas mãos a moldar vidro, como se de barro se tratasse.
Eu sei que a memória me falha, falhará ainda mais, e por isso é que me tento agarrar a todos os bocadinhos que resistiram ao pó, tudo o que consiga cuidar e dar nova vida, cada pequenina coisa em que possas ter remexido. Assim posso fingir voltar a carregar no play e recordar-te em todos os amanhãs.

27 de setembro de 2014

partitura

Se soubesses as vezes em que as palavras me ficam presas, como se quisessem procurar-te e eu não lhes desse o mapa até ti. Já lhes disse que um dia as deixo sair, mas aqui entre nós, não consigo escolher esse dia. Não sei em que calendário se pode marcar um dia desses e prefiro ir avançando neste em que estamos na esperança que o marques por mim.
Mas se soubesses que te minto, que te adio, o quão egoísta sou, sei que nesse dia me estilhaçavas. E assim, prefiro andar por aí, no mapa que desenhámos e que não dou, mesmo sabendo que inteira não seja verdadeira.

26 de setembro de 2014

Mixtape

Comecei por ler o prefácio e quis saber o que havia mais. Deixei para trás as folhas em branco e as com informações triviais.
No início li distraidamente, umas páginas por dia e mais algumas no seguinte. Tornou-se hábito rapidamente claro, como se tornam as coisas felizes. 
Depois vi que cada parênteses tinha uma história por contar e cada interrogação a sua resposta, cada acento o seu sentido e cada capítulo algo de que se gosta. 
Agora perco-me nos parágrafos e estudo cada linha para que nada me escape. Tento compreender onde estão as vírgulas e onde só há pontos finais. 
Eu sei que faltam muitas páginas, tantas que não sei contar! Mas se as leio devagarinho é porque tão cedo não quero acabar. 

22 de setembro de 2014

vinte e três minutos

Há horas que passam como aprendemos nas aulas: têm sessenta minutos, como deveriam, e em cada um desses minutos há, como ditam os livros, sessenta pequenos e pontuais segundos.
O que não nos explicam, mas depressa aprendemos, é que há horas que parecem dias. São tão grandes que nessas horas daria para decorar um dicionário inteiro, daria para fazer um passe e o cartão do cidadão, daria para ver o Louvre de uma ponta à outra. Essas horas não passam, vão-se arrastando.
E depois claro, há as melhores horas. Aquelas que juramos nem terem passado, que o relógio nem viu, que o tempo não registou. Nessas horas a vontade é nunca ter aprendido a saber a hora, deitar os livros fora e fazer de conta que o tempo parou.


19 de setembro de 2014

dueto

Há textos que merecem ser partilhados em tudo quanto existe.

"
Bastava que ela me dissesse: vamos. E eu iria. Não sei para onde. Não imagino para onde. Mas iria. Feliz como nunca. Feliz como estou feliz sempre que estou com ela. Vamos, diria ela, nos meus sonhos mais utópicos. E eu iria. Mas não vou. Ela não diz. Ela não diz nada e eu vou aguentando esta sucessão de nadas que tento transformar em tudo. Amar é transformar uma sucessão de nadas em tudo.
"
de Pedro Chagas Freitas

16 de setembro de 2014

tesouradas

Raramente tenho nós nos cabelos.
Mas não me penteio, não. Nem tão pouco me sirvo do amaciador.
Os cabelos vão crescendo e alguns vão aterrando no chão. Uns ficam agarrados às camisolas, o que ninguém gosta, e outros não caiem nem por nada.
Cabelos à frente dos olhos, cabelos atrás da orelha, dias em que o cabelo está uma miséria, dias em que nos fazem cafuné, cabelo crescido, cabelo demais e finalmente as pontas espigadas.
Não corto muitas vezes o cabelo, talvez porque não tenha nós nos cabelos e me divirta a ver como cresce.
Mas oh!, como às vezes apetece ir à máquina zero.