
Devo começar por algo que me aflige realmente e que despoletou toda esta minha reflexão de velha do Restelo: a Leopoldina.
Ponham a mão no ar aqueles que se lembram da Leopoldina avestruz. Aquele animal com uma grande anca, amigável e que entrava pelas nossas televisões em todas as épocas de Natal. Ora, para os que levantaram a mão, tenho uma terrível notícia: a Leopoldina deixou de existir para ser substituída pela Lara Croft, versão adoentada e "infantil". A gorda, que nos acompanhava e enchia de alegria esta época, comprou um corpete preto, super justo, fez uma operação plástica (é preciso dizer a quê?), trocou as asas por mãos e, coisa que ainda não tinha reparado, tem também um magnífico par de botas.
Eu entendo, senhores do Continente, que os tempos mudam e que é preciso inovar, para que a malta mais jovem, continue a eleger o hipermercado para as suas compras materialistas do Natal. Mas, devo deixar aqui escrito, que fica um aperto no peito, a todos os que deixam agora, subitamente, de se sentir crianças quando constatam que já não existe a "Lipolina", com garras em vez de pés, com um corpo decente de avestruz e com asas protectoras que, aparecia, de quando em vez, no hipermercado, a cumprimentar todos os que o desejavam.
Acabado este pensamento, continuei a lembrar-me de tudo o que, marcando a minha infância, desapareceu, sem se perceber quando, das infâncias "modernas".
Reparei aqui há dias que todos os filmes da Disney sempre foram musicais. Do início ao fim do filme, personagens cantavam e, se possível fosse, dançavam. Por isso é que surgem, numa conversa sobre filmes de animação, clássicos como "Eu mal posso esperar para ser rei", "Um mundo ideal", "Quantas cores o vento tem", "Sou teu amigo sim" ou até "Vais lutar".
Hoje em dia, as músicas usadas, servem de música de fundo, de cenário que, apesar de nos cativar, não nos fica no ouvido e invade a memória. Quem é que sabe a música da Christina Aguilera "Car Wash" do filme O Gang dos Tubarões. Quem se lembra do "Life is a highway" dos Rascal Flatts que entra no filme Carros? Que miúdo é que vai saber estas músicas de cor hoje em dia?
Por fim, e para resumir em três pontos o que me tem enchido a cabeça, escrevo agora sobre séries animadas.
Alguém já se dignou a pensar na mensagem distorcida da série Noddy, que mexe multidões de pequenada? Na maior parte dos episódios o Noddy (personagem principal e herói da acção) com o seu giso irritante, está sempre envolvido e é prejudicado pelos duendes (são duentes, right?). O que acontece da mal aqui é que quase sempre acontece a mesma reviravolta: o Noddy acaba por pagar na mesma moeda aos duendes mal-feitores. Que mensagem é que é dada aqui? Onde é que anda a velha frase da fábula "Não faças aos outros aquilo que não queres que te façam a ti"? Eu sei que a cegonha faz o mesmo à raposa mas aí é para dar o exemplo. O Noddy fica a rir energicamente (e maleficamente) e assim acaba mais uma história.
Que saudades teriam os "mais novos de agora" de séries educativas como Flinstones, Dart'cão, Hakuna Matata, Tom and Jerry, Pantera Cor-de-rosa, o Verdocas, Looney Tunes, Scooby Doo e de tantos outros, se apenas os conhecessem.
Enfim, que remédio temos senão recordar nostalgicamente tudo o que marcou a nossa infância, e esperar que os meninos de amanhã gostem também de algo nosso para que possamos dar uso a todas as memórias que guardámos.
Para finalizar, uma breve nota de "retorno à realidade":
Eu sei que os anos evoluem, que os meus pais se lembram da Heidi e que os meus avós se lembram de coisas que nem passavam em televisão nenhuma (talvez em rádios). Sei que este ciclo, estonteantemente rápido, é belo de se ver e que não podia existir um rumo diferente para que continuasse a haver progresso. Tudo avança, naturalmente, rápido, mas acho que falo por todos, quando digo: "Quem me dera que parasse por um só momento".




